Um ‘Zero à Esquerda na Guitarra’ chega à conclusão que não é tarde demais para estudar música

Guitar Zero

Dizem que não se pode ensinar novos truques a um cão velho. Mas pode-se ensinar a um velho guitarrista novos acordes?  E a um velho ignorante da guitarra, que nem sequer um músico é?

Gary Marcus não é assim tão velho. Na verdade está na primeira metade dos 40, é um professor de psicologia na Universidade de Nova Yorke, e um especialista em desenvolvimento cognitivo. Markus decidiu praticar a guitarra, para estudar o processo de aprendizagem da música, fazendo de si próprio um objecto de estudo. No seu novo livro “Guitarra Zero: O Novo Músico e a Ciência da Aprendizagem” documenta este processo. O título do livro é uma clara deferência ao jogo de vídeo “Herói da Guitarra”. Marcus diz que jogar o jogo foi o que o motivou a tentar tocar no mundo real.

“Eu tinha algum tempo livre, pois estava, de facto, a gozar a minha licença sabática” disse a Rachel Martin, do Serviço Público de Radio nos EUA. “Eu pensei, este é o momento. Eu vou mesmo tentar agora. Vou-me mesmo empenhar”.

Marcus dedicasse ao estudo da aprendizagem da fala na universidade. Diz ele que, por muito tempo, era aceite como teoria generalizada, que havia ‘períodos críticos’ na vida: a ideia de que, se não aprende a fala cedo na vida, nunca mais o vai adquirir.

“Costumavamos acreditar que assim era – que se não se adquire até aos 16 anos, nunca se ia ser fluente na fala,” diz Marcus. “O que sabemos hoje é que alguns adultos sim tornam-se fluentes e, embora seja definitavemente mais fácil aprender algumas coisas quando se é criança, não é de todo verdade que se perde por absoluto a capacidade de aprender mais tarde na vida. Existe um declínio gradual, mas é possível fazê-lo.”

Marcus diz que não nasceu com nenhum tipo de talento musical, mas simplesmente, por ser um adulto inteligente, é-lhe proporcionado aprender como funciona a música, de uma forma que lhe seria impossível em criança. No entanto, admite que a mecânica da guitarra criou alguns desafios ao seu cérebro de adulto.

“Quando olha para o piano, as notas estão colocadas de uma maneira sistemática. Fácilmente se consegue encontra o ‘dó’ independentemente da oitava em que se está no momento. O ‘ré’ encontra-se na próxima nota, ignorando a tecla preta. É muito sistemático” explica Marcus. “ Na guitarra não existe nada que de algum modo identifica quais são as notas base – os dó, ré em vez dos dó sustenido e ré sustenido. E depois, cada corda estrutura as coisas de uma maneira diferente. Nós temos uma memória que nos torna difícil lembrar coisas parecidas. A título de exemplo, se estacionar o carro no mesmo lugar todos os dias, as suas memórias do lugar esvanecem-se, e depois de algum tempo, já não se consegue lembrar o local exato aonde estacionou, quando um dia estacionou noutro lugar.”

A mais profunda realização de como as crianças e os adultos diferem ao estudar música, diz Marcus, foi quando ele se inscreveu para um campo de férias de bandas. Viajou até à sua terra natal de Baltimore e inscreveu-se no programa ‘Day Jams’ em que os participantes – na maioria crianças – têm 5 dias para criar uma cantiga e a tocar em público. Marcus diz que os seus colegas com 11 anos tinham um instrumento inesperado a seu favor: paciência.

“Eu penso que crianças têm muita mais paciência para repetir e repetir uma coisa várias vezes até o conseguirem na perfeição. Eu penso que os adultos ambicionam ultimar a canção num só dia” diz Marcus. “Os adultos ouvem a gravação muitas vezes e não se dão ao privilégio de resolver um problema por incremento. Assim, penso que aqui existe uma diferença na estratégia.”

Algumas características tal como o ouvido absoluto, têm que ser adquiridas no início da vida para ficar gravada, para ficar interiorizada. Mas insiste que há esperança para adultos não-músicos que querem estudar um instrumento. Claro que têm que por vezes engolir o seu orgulho e dedicar-se ao estudo.

“Muitos adultos concentram-se no que fazem bem. Eles não se dedicam àquilo que não dominam bem” diz Marcus. “ No meu caso, eu tive que me concentrar no ritmo. Se eu me tivesse dedicado àquilo que fazia bem, ainda hoje a minha música soava horrível. Agora não soa assim tão má e isso é porque eu me esforcei tanto no ritmo. Assim, não espere o sucesso de um dia para o outro. Tente obter satisfação por cada incremento no seu progresso.”